12 lições de vida de um homem que já presenciou 12.000 mortes


O que podemos aprender com os que estão a morrer? 

Enraizada no coração de muitos hindus está a crença de que, se respirar pela última vez em Kashi (localidade na Índia), alcançará o que é popularmente conhecido como o ‘Kashi Labh’ ou o ‘fruto de Kashi’ — que é moksh ou “libertação do ciclo de renascimento que é impulsionado pela lei do karma”.

Kashi Labh Mukti Bhawan na região de Varanasi é uma das três pousadas na cidade onde as pessoas fazem check in para morrer. As outras duas são Mumukshu Bhawan e Ganga Labh Bhawan. Fundada em 1908, Mukti Bhawan é muito conhecida dentro e fora da cidade.

Bhairav Nath Shukla é o gerente do Mukti Bhawan há 44 anos. Ele já viu ricos e pobres refugiarem-se na pousada em seus últimos dias, enquanto esperam a morte e anseiam encontrar paz. Shukla anseia com e por eles. Ele senta-se num banco de madeira no quintal, contra um muro de tijolos, e partilha comigo 12 lições de vida recorrentes das 12.000 mortes que ele testemunhou em sua experiência como gerente do Mukti Bhawan.

1. Resolva todos os conflitos antes de partir

Shukla reconta a história de Shri Ram Sagar Mishr, um erudito de Sanskrit do seu tempo. Mishr era o mais velho de seis irmãos e tinha mais afinidade com o irmão mais novo. Anos antes, uma discussão entre os dois irmãos levou à construção de uma parede para separar a casa.

Foto: Uplift

Nos seus últimos dias, Mishr entrou na pousada com a sua pequena mala de paan e pediu para ficar com o quarto nº 3, reservado para ele. Ele estava certo de que iria morrer no 16º dia de sua chegada. No 14º dia, ele disse: “peça para que o meu irmão, de quem estou separado há 40 anos, venha ver-me. Esta amargura está a deixar o meu coração pesado. Estou ansioso para resolver todos os conflitos”.

Uma carta foi enviada. No 16º dia, quando seu irmão mais novo chegou, Mishr segurou a mão dele e pediu para que o muro que dividia a casa fosse derrubado. Pediu que o seu irmão o perdoasse. Ambos os irmãos choraram e, no meio de uma frase, Mishr parou de falar. Sua face tornou-se calma. Num instante, ele havia partido.

Shukla tem visto essa história repetir-se de muitas formas ao longo dos anos. “As pessoas carregam consigo tanta bagagem, desnecessariamente, pela vida toda e só querem largar no final da jornada. O truque não é não ter conflitos, mas resolvê-los assim que pudermos”, diz Shukla.

2. Simplicidade é a verdade da vida

“As pessoas param de comer comida por deleite quando sabem que vão partir. Em muitas pessoas que estão nos seus últimos dias nasce um entendimento de que elas deveriam ter levado uma vida simples. É disso que elas mais se arrependem”, diz Shukla.

Uma vida simples – como explica ele – pode ser alcançada gastando menos. Nós gastamos mais para acumular mais e, com isso, criamos mais necessidades. Contentar-se com pouco é o segredo para ter mais.

3. Filtrar as características negativas das pessoas

Shukla sustenta que todo mundo tem traços bons e maus. Em vez de descartar pessoas “más” logo à partida, devemos encontrar as suas qualidades boas. Alimentar antipatia por certas pessoas acontece porque nos concentramos nas qualidades negativas. Se nos focarmos nas qualidades boas, no entanto, podemos usar essa energia para conhecê-las melhor ou, talvez, até nutrirmos amor por elas.

4. Esteja disposto a pedir ajuda aos outros

Saber e fazer tudo por si pode dar uma sensação de elevado poder pessoal, mas isso limita a possibilidade de absorvermos o que os outros aprenderam. Shukla acredita que devemos ajudar os outros, mas – mais importante que isso – é ter coragem de pedir ajuda quando necessitamos.

Toda a gente no planeta sabe mais que nós, em algum aspecto. E o conhecimento deles pode nos ajudar, mas só se estivermos abertos para isto.

Ele contou que, em certa ocasião, uma senhora mais velha estava a fazer check in na pousada num dia chuvoso, lá por volta de 1980. As pessoas que a levaram foram embora sem preencher os formulários. Algumas horas depois, a polícia apareceu procurando pistas dos parentes da senhora idosa, os quais – disseram eles – eram fugitivos Naxalitas*. Shukla fingiu que não sabia de nada e a polícia foi embora. Quando os parentes dela voltaram na manhã seguinte, Shukla perguntou ao líder, sem constrangimento: “Se você consegue matar 5-8 pessoas, porque simplesmente não deu um tiro à sua avó e tratou de a cremar? Porque me obrigou a mentir, fazendo-me sentir vergonha?” O neto caiu de joelhos e implorou por perdão dizendo que ninguém entre eles seria capaz de ajudar a avó, que era profundamente religiosa, a alcançar a salvação. Ele respeitou isto, e esse foi o motivo pelo qual ele a aceitou no Mukti Bhawan.

*grupos de militantes comunistas que operam em diferentes partes da Índia

5. Veja beleza nas coisas simples

No Mukti Bhavan, são tocadas comoventes bhajans e músicas devocionais três vezes ao dia. “Algumas pessoas”, ele diz, “param e apreciam um excerto ou o som dos instrumentos como se elas nunca tivessem ouvido antes, mesmo que já tenham ouvido. Elas param para apreciar e ver a beleza que estas músicas têm”.

Mas isso não é verdade para todos – ele acrescenta. Pessoas que são muito críticas ou muito orgulhosas são aquelas que têm dificuldade para achar alegria nas pequenas coisas, porque a mente delas está preocupada com coisas “aparentemente” mais importantes.

6. Aceitação é libertação

A maior parte das pessoas não quer aceitar o que está a acontecer com elas. Essa constante negação vai gerando emoções altamente perigosas. Apenas quando aceitamos a nossa situação é que ficamos livres para decidir como lidar com ela. Sem aceitação, ficamos sempre numa zona cinzenta.

Quando não está em negação em relação a um problema seu, você encontra forças para encontrar a solução.

Indiferença, fuga ou negação de determinada verdade – acredita Shukla -, causa ansiedade; as pessoas desenvolvem um medo daquela coisa dentro si mesmas. Em vez disso, aceite a situação, para que você fique livre para pensar o que vai fazer em relação àquilo e de que forma. Aceitação vai libertá-lo/a e dar-lhe poder.

7. Aceitar todas as pessoas como iguais faz o serviço de Shukla ficar mais fácil

O segredo da determinação e dedicação inabalável que Shukla tem pelo seu exigente trabalho pode ser compreendido por meio dessa lição de vida: ele admite que a vida seria difícil se ele tratasse as pessoas que dão entrada no Mukti Bhavan de forma diferente, com base na casta, no credo, na cor ou na condição económica e social. Categorizar complica e assim acabamos por não servir bem ninguém. “O dia em que você tratar todos de igual forma, será o dia em que você vai respirar suavemente e ficar menos preocupado se outros ficaram ofendidos ou não. Facilita o seu trabalho”, diz.

8. Se/quando encontrar seu propósito, não fique parado

Ter consciência sobre sua vocação é maravilhoso, mas só se fizer algo com isso.

Muitas pessoas – diz Shukla – sabem o que dá sentido para elas, mas não fazem nada para concretizar isso, para dar vida ao propósito. Só sentar-se e não fazer nada é pior do que nunca ter tido uma vocação. Ter uma visão sobre o seu propósito vai ajudá-lo/a a medir quanto tempo e esforço precisa dedicar para isso, ao mesmo tempo em que vai sendo levado por coisas que acha que não pode abrir mão ou deixar escapar. Tome uma atitude em relação ao que realmente importa.

9. Hábitos vão se transformando em valores

Shukla recomenda que cultivemos hábitos bons para que possamos abrigar valores bons. E construir bons hábitos leva tempo e requer prática. “é como desenvolver um músculo: tem que persistir todos os dias”.

Se o indivíduo não trabalha consistentemente para se tornar mais justo ou gentil ou verdadeiro ou honesto ou compassivo, sempre que for posto à prova, então não pode achar que tem essas qualidades.

10. Escolha o que quer aprender

Na vastidão da quantidade infinita de conhecimentos que está disponível para nós, é fácil perdermo-nos e ficarmos confusos. “A lição-chave aqui é estar atento para escolher o que realmente sente que vai ter valor para si”, disse. As pessoas, em busca do próprio interesse, tentam impor-lhe assuntos e filosofias, mas, ao mesmo tempo que deve estar ciente das suas sugestões, o mais sábio a fazer é aprofundar o seu conhecimento naquilo que alegra o seu coração e a sua mente.

Com um sorriso no rosto, Shukla diz: “Nos últimos dias de vida, muitas pessoas não podem falar, caminhar ou comunicar com os outros com a mesma facilidade que faziam antes. Então, estas voltam para dentro de si. E começam a lembrar-se de coisas que um dia fizeram o coração delas cantar. Coisas que elas quiseram aprender mais no decurso das suas vidas e que hoje enriquecem os seus dias.

11. Não cortamos laços com as pessoas; cortamos laços com os pensamentos que elas produzem em nós

Raramente nos distanciamos de pessoas que verdadeiramente amamos ou com quem nos tenhamos conectado. Contudo, em qualquer relacionamento, ao longo do caminho, certas divergências de ideologias fazem com que pessoas parem de comunicar entre si.  Isso nunca pode significar que já não tem nada a ver com essa pessoa. Apenas significa que você não se associa com um pensamento dominante que essa pessoa traz consigo. E, para evitar mais conflitos, afasta-se. O divórcio, Shukla afirma, é feito com os pensamentos, nunca com a pessoa. Entender isso é tirar um fardo de si próprio em vez de ficar amargo e vingativo.

12. 10 por cento do que você ganha, deve guardar para “dharma”

“Dharma” não é definido por Shukla como algo religioso ou espiritual. Em vez disso, ele diz que isso está associado com fazer o bem a outras pessoas e sentir-se responsável por isso. Um simples cálculo, segundo ele, é guardar 10% do que ganha, para boas ações.

Muitas pessoas doam ou fazem atos de caridade quando caminham para o fim das suas vidas porque a morte vai-se tornando pesada. No seu sofrimento, começam a ter empatia com o sofrimento dos outros. Ele diz que quando têm a companhia dos entes queridos, as bênçãos de estranhos e desconhecidos e a boa vontade geral das pessoas, partem pacificamente e graciosamente. Isso torna-se possível quando deixa de se apegar a tudo que tem e quando você deixa uma parte para os outros.

Autor: Deepak Ramola 

Texto traduzido do artigo publicado no site UPLIFT por Tibert house Brasil e adaptado para Português de Portugal pela equipa 3NCRYPT3D

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